Tradicional evento da religiosidade de matriz africana, a Lavagem da Escadaria da Catedral de Campinas reuniu milhares de pessoas no Sábado de Aleluia
Desde 1985, a Lavagem da Escadaria da Catedral Metropolitana — Paróquia Nossa Senhora da Conceição — é um marco de celebração da cultura afro-brasileira e de homenagem aos povos negros que ajudaram a construir esta metrópole. Em 2022, a cerimônia foi reconhecida oficialmente como Patrimônio Cultural Imaterial Municipal.
Idealizada por Mãe Corajacy e Mãe Dango, a Lavagem nasceu como um grito de resistência e um gesto de reverência aos ancestrais Bantu — força motriz na formação da identidade brasileira, com grande influência na língua, culinária, religião e cultura.

Vestidos de branco — cor que simboliza a paz, afasta energias negativas e favorece a conexão espiritual, sobretudo com Oxalá, Orixá da criação e da serenidade — os religiosos e participantes se reúnem na Estação Cultura. Ao som de tambores e cânticos, seguem em cortejo pela Rua 13 de Maio — nomeada em referência ao dia da Abolição da Escravatura no Brasil — até a Catedral.
Em 2025, estima-se que a cerimônia reuniu 5 mil pessoas. Entre os participantes, Glória Marie, que participou de todas as edições do evento e em 2025, marcou presença com seus filhos e netos. Também assíduo, Valdomiro chegou a Campinas aos 16 anos e nunca deixou de participar de uma única edição da tradicional Lavagem.
Sob o sol, carregam flores, água de cheiro e objetos sagrados, marchando pelo respeito aos povos pretos, pelo combate ao racismo e à intolerância religiosa, e pela valorização da cultura afro-brasileira. Mãe Dango ressalta a importância de iniciativas que fortalecem a livre expressão da fé. Segundo ela, o uso do fio de conta — colar confeccionado com miçangas, símbolo de identidade e proteção espiritual — tornou-se mais livre e respeitado graças à resistência dos povos pretos, expressa em movimentos culturais e religiosos como a Lavagem da Escadaria.
O ritual de lavagem, ponto alto da cerimônia, acontece frente às portas fechadas da Catedral. pois no Sábado de Aleluia a Igreja Católica permanece em luto pela morte de Cristo.
Padre Pedro, sacerdote da Igreja Anglicana, explica: “A igreja católica, ela tem o costume de no dia do sábado santo, Sábado de Aleluia, estar fechada. Por quê? Porque a igreja está de luto. Jesus faleceu na Sexta-Feira Santa. O Sábado de Aleluia, o sábado santo, ele é o dia do luto da igreja.” Ele fez questão de afirmar: “Não é desrespeito ao Povo do Axé, é um preceito.”

Em um gesto de fé e devoção, cada degrau é cuidadosamente esfregado com vassouras e banhado com água de cheiro — símbolo de energia e renovação espiritual — aos pés de Nossa Senhora da Conceição, Santa sincretizada com Oxum e com Iemanjá em algumas regiões do país. Para Mãe Dango, o ritual é uma forma de resistência e fé. “As igrejas foram construídas por escravos”, pontua.
Em um dia em que a Igreja Católica se silencia, a escadaria da Catedral se enche de vozes que entoam liberdade, resistência e a força de um povo que nunca deixou de lutar. Em cada passo lavado, em cada batida do tambor, em cada lágrima de emoção, a cidade honra o pedacinho da África que pulsa em cada um de nós.

