A Paisagem Cultural de Parintins: Uma Ilha Pintada de Paixão

Em Parintins, o amor por um boi não é escolha: é destino. Dividida entre o azul do Caprichoso e o vermelho do Garantido, a cidade vive uma rivalidade que vai muito além da arena — está nas ruas, nas paredes e na pele de quem nasce à sombra dessa paixão centenária.

Em uma ilha fluvial no coração da Amazônia, uma rivalidade centenária pulsa em cada olhar, em cada muro e equina. Em Parintins, no Amazonas, não há espaço para neutralidade: ou se é vermelho ou se é azul. Mais do que um festival folclórico, a disputa entre os bois-bumbás Garantido e Caprichoso molda a paisagem, a cultura e o próprio modo de viver dos parintinenses. Na cidade dos bois, cada cor é um território, e cada território, uma extensão da alma de quem ali habita.

A tradição começou a tomar forma em 1913, segundo os próprios registros das agremiações. Foi nesse período que surgiram o Caprichoso, boi de cor preta com estrela na testa e estandarte azul, criado no bairro da Francesa, e o Garantido, boi de cor branca com coração na testa e estandarte vermelho, criado na Baixa do São José. Desde então, Parintins foi partida ao meio — não por muros físicos, mas por fronteiras simbólicas que organizam ruas, casas e corações.

A divisão não é sutil. Nos currais oficiais — o Curral Zeca Xibelão, do Caprichoso, e o Curral Lindolfo Monteverde, do Garantido —, a cor do adversário é proibida. A regra não se restringe às sedes: ela se estende às alegorias, vestimentas, acessórios e até aos trajes de visitantes. Quem desavisado vestir a cor errada no local errado pode ser vaiado, barrado e até gentilmente convidado a se retirar.

Essa devoção não conhece limites. Para os torcedores mais apaixonados, as cores do adversário são vetadas em roupas, calçados, joias, veículos, embalagens e até móveis. Em contrapartida, o amor ao boi favorito se materializa nos muros pintados, nas fachadas de casas, nos triciclos decorados e nas vitrines comerciais — tudo é azul ou vermelho.

Os visitantes que chegam a Parintins durante o festival logo percebem que não se trata apenas de uma festa folclórica, mas de um modo de existência. Não há um centímetro da cidade que escape à influência dessa rivalidade

A identidade local é visivelmente marcada por essa estética dividida, expressão viva do conceito de lugar na fenomenologia. Como define Carlos (2007) lugar é “o espaço passível de ser sentido, pensado, apropriado e vivido”. Em Parintins, ele é sentido em azul e vermelho.

Essa rivalidade extrapola a cultura e invade o urbanismo. A linha imaginária que une a Catedral Nossa Senhora do Carmo ao Bumbódromo é, na prática, uma fronteira simbólica que divide a cidade em duas nações cromáticas. “Parintins é, assim, geograficamente dividida ao meio, refletindo na sua arquitetura e no seu traçado urbano a dualidade cromática, a personalidade dos bois e o próprio festival” (Valentin, 2005).

Essa ocupação dos espaços também é um ato político e cultural; para Lefebvre (1991), a apropriação do espaço urbano é uma manifestação de poder e cultura. A rivalidade dos bois em Parintins é, portanto, uma tradução concreta do direito à cidade, onde os torcedores se apropriam física e simbolicamente do território para afirmar pertencimento e identidade.

Além da paixão popular, essa rivalidade também é explorada comercialmente por grandes marcas, que adaptam suas logomarcas, produtos, embalagens e cores para dialogar diretamente com os torcedores. Esse fenômeno, conhecido como folkmarketing, consiste em uma estratégia que se apropria de elementos culturais locais para criar identificação com o público e evitar a perda de espaço e consumidores para empresas concorrentes cuja cor original coincida com a de um dos bois. Dessa forma, os outdoors pelas ruas, as gôndolas dos supermercados e os carrinhos de ambulantes são tomados por propagandas, produtos e slogans personalizados com cores, símbolos e trocadilhos que remetem aos bumbás.

Ainda que o objetivo seja comercial, essa prática reconhece a força da cultura regional. Mais do que uma estratégia de vendas, é uma forma de prestar reverência a uma paixão que é levada na pele, na camisa e na alma dos parintinenses.

Em Parintins, a rivalidade dos bois não é apenas folclore. É vida. É política. É memória. É tatuagem na pele e nas paredes. Azul de um lado, vermelho do outro, dois mundos separados por uma linha invisível, mas unidos por uma devoção comum: o amor pela cultura que transforma a cidade em um espetáculo permanente.

Texto

Andreia Dias

Fotos

Bete Marques

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