A Tradição Mexicana do Dia dos Mortos
Fruto de um sincretismo entre a cultura indígena pré-hispânica e o catolicismo, a tradição mexicana diz que entre os últimos dias de outubro e o dia 02 de novembro as almas têm autorização para cruzar a fronteira entre mortos e vivos para visitar seus entes queridos. Para receber seus mortos, o México se veste de festa: ruas, restaurantes e hotéis são invadidos por catrinas e tingidos pelo laranja do cempasúchil, flor típica da ocasião. Em casa, nos comércios e nos cemitérios são construídos altares, onde as famílias depositam oferendas preparadas com as comidas e bebidas favoritas da alma visitante.

Em uma cena inimaginável na cultura brasileira, os cemitérios se tornam o palco principal da festa. Túmulos iluminados e coloridos reúnem de crianças a idosos durante toda a noite e madrugada. Nem o frio nem a chuva, comuns no outono do hemisfério norte, dispersam as famílias. Em alguns locais, inclusive, grupos de mariachis são contratados para animar a noite.
Quase invisível, encostada na parede de pedras que cerca o cemitério na Ilha de Janitzio, no lago de Pátzcuaro, a jovem Yunuen vela o túmulo de seu pai. Manuel era músico e sua profissão foi devidamente representada na decoração de seu túmulo através de réplicas de seu instrumento, o violão. Em Michoacán, estado onde a maioria da população é composta pelo povo indígena purépecha, durante os primeiros 3 anos do falecimento o túmulo é enfeitado com um grande arco decorado com cempasúchil, representando o portal que separa os mundos dos vivos e mortos. Além das flores, os arcos são decorados com frutas, caveiras e em quase todos os casos, com alguma representação da Virgem de Guadalupe.

Tradições Maias
Cerca de 1.500 km a sudeste de Pátzcuaro, em território maia, outra tradição aproxima vivos e mortos não apenas em espírito. Nos dias que antecedem o Dia de Todos os Santos e Finados, tem início o ritual de limpeza dos ossos no cemitério do município.
Na tradição local, após três anos do falecimento — quando, teoricamente, já ocorreu a decomposição dos tecidos — o corpo é exumado e seus restos são depositados em caixas de madeira forradas com tecido branco, contendo símbolos religiosos, flores e, quase sempre, o nome da pessoa falecida bordado ou pintado à mão. O ritual consiste na troca do tecido e na limpeza dos ossos, que voltam a repousar sobre o novo manto.

Localizada no estado de Campeche, na península de Yucatán, Pomuch tem sua população formada por descendentes maias, que ainda falam o idioma de seus ancestrais. Acredita-se que o ritual seja parte dessa herança, já que as tradições maias são bastante presentes em toda a península. O costume, estranho aos olhares estrangeiros, é para a população local um gesto de amor e já incorporado às celebrações do Dia dos Mortos.
Alguns familiares aguardam mais de três anos para iniciar o processo, pois não é raro que a decomposição demore a se concluir. Seu José Izabel me contou ter esperado cinco anos para exumar o corpo da mãe, e que aquela seria a primeira vez que faria a limpeza. Dona Maria Ernilda ainda trazia a trança que usava quando foi enterrada. Seu José, que acabara de limpar os restos do pai entre risos e aulas de anatomia, repetiu o ritual com a mãe; porém, a decomposição ainda incompleta do rosto fez a fala, antes animada, dar lugar ao silêncio, e os olhos marejados demonstraram que a saudade ainda é grande.
Para os mexicanos, a morte não é o fim, mas o começo de uma nova etapa de evolução do espírito. Os cemitérios não são lugares de medo, mas de comunhão. Os rituais mexicanos para seus mortos são permeados por amor e respeito: amor à família e respeito às histórias daqueles que os antecederam e contribuíram para a construção das pessoas que são hoje. Seja ao som dos mariachis nas noites frias ou em conversas sob o sol escaldante da região do Golfo do México, a morte nas terras de Frida e Diego é colorida e feliz.








